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domingo, 14 de março de 2010

Histórias para se ouvir, quando contam.

Perfil escrito por Pablo e Thiago Ramos, como última atividade do curso de férias de jornalismo literário
Caminhávamos rápido, com o olhar atento, como que buscando algo. Tínhamos pouco tempo para escolher alguma pessoa com quem pudéssemos fazer nossa matéria. Vez ou outra eu tropeçava numa das muitas pedras soltas daquelas grandes passarelas que contornavam os enormes canteiros que, por sua vez, percorriam toda a extensão da Praça da Bandeira. Meus calos já reclamavam que seria melhor eu não gastar tanta atenção com as pessoas ao redor. 

Às vezes parávamos subitamente e voltávamos o olhar para as muitas dimensões da praça. Parecíamos turistas perdidos. Naquela situação, não era necessário nenhuma placa com “me roube” pendurada em nossos pescoços para dizerem que éramos alvos fáceis. 

A princípio, nossa idéia nada inédita era fazer uma matéria sobre a Praça da Bandeira em si, retratando-a como um indivíduo. 

Então, chamando minha atenção para um senhor que estava sentado sozinho em um banco, Pablo disse:

- Thiago, aquele senhor sentado ali pode conhecer alguma coisa sobre a história da praça. Que tal irmos falar com ele?

Era um senhor já de idade, pra lá de seus 70 anos. Parecia do tipo calmo, de movimentos lentos e que gostava de contar suas aventuras de quando ainda era jovem. Com isso, nos aproximamos. Para a nossa surpresa, com extrema destreza o senhor tirou seu forro de banco e pôs-se a correr, sem ao menos olhar em nossos rostos. Ficamos estagnados, perplexos, sem entender o que havia acontecido ali. Quando nos demos conta, o ancião velocista já estava longe. Naquele momento, nosso estereótipo parecia mudar de “candidatos a serem assaltados” para “assaltantes procurando candidatos”.

Resolvemos então falar com outro senhor que também encontrava-se em um banco. Mas agora, com uma abordagem menos brusca. 

- Bom dia, podemos falar com o senhor um instante? – perguntou Pablo.

- Eu não escuto muito bem. – respondeu prontamente.

Pablo então deu um passo para trás e em um tom baixo, perguntou:

- O senhor não escuta muito bem?

- É, eu não escuto muito bem. – respondeu o senhor, que de surdo não tinha nada.

Impaciente, eu tomei a frente e falei:

- Senhor, é que nós somos da Universidade Fede...

Nem tive chance de concluir e ele já me interrompia:

- Eu sei que vocês são aqueles crentes! Não quero nada com vocês!
 
Acredito que se ele tivesse uma bengala, teria nos batido. Talvez se fossemos de outro lugar, ou mesmo de outro sexo, ele teria nos dado atenção.

Minha esperança já esvaia-se mais rápido que o bater de pernas do velho de outrora, quando Pablo sugeriu que abordássemos o vigia do Teatro de Arena. Era uma boa idéia, afinal, pelo menos esse não iria fugir.
Antes de irmos, dei mais olhada na praça. O verde da grama intercalava-se com o verde das árvores que esforçavam-se em tentar alcançar o céu. A música dos equatorianos trajando vestes indígenas ecoava até o palhaço que não hesitava em abordar as pessoas de forma nada sutil para pedir algum dinheiro pelas mágicas que ele fazia. Um policial conferia os celulares de última geração dos ambulantes que espalhavam seus produtos pelo chão, enquanto espreguiçavam-se nos bancos. Vendedores de salgados cruzavam com velhos senhores que pareciam estar esperando alguém. Os pombos passeavam em meio às pessoas apressadas com suas sacolas, mochilas, bolsas e idéias.

O vigia disse que quem poderia saber sobre a história da praça era a coordenadora de eventos de lá, então pedimos para chamá-la. Da sala ao lado do Teatro de Arena saiu uma mulher. Era morena com cabelos negros que batiam nos ombros e estavam presos por um elástico roxo, pouco combinando com o vestido de estampas florais que descia até depois do joelho. Devia ter cerca de 1,70 e já estar na casa dos 40. Com um sorriso no rosto, ela nos conduziu até sua sala.

Explicamos sobre o trabalho e pedimos para que ela nos contasse um pouco sobre a Praça da Bandeira e o Teatro de Arena. Dona Fátima, como preferia ser chamada, começava a falar do teatro como se ele fosse um grande amigo de infância.

- A senhora já participou de alguma peça de teatro? – perguntei, corroendo-me de curiosidade.
- Sim, sou atriz e já atuei em várias peças. – respondeu ela, já procurando em sua bolsa a carteirinha que lhe permitia carregar esse título.

Só agora percebia o ambiente ao meu redor. Estávamos em um quarto 3x4 com uma porta que dava acesso à praça e uma outra, transversal à primeira, que provavelmente levaria à parte interna do teatro. Havia também uma pequena janela que em nada ajudava a ventilar. Dona Fátima escondia-se por trás de uma velha mesa de madeira, com uma pilha de arquivos de um lado e um telefone do outro. Uma televisão e algumas cadeiras de plástico, as quais sentávamos, preenchiam o quadro decorativo do local.

Percebemos naquele momento que aquela mulher tinha uma boa história para contar. Era como nosso professor já dizia: “nós não escolhíamos os objetos, eles é que nos escolhiam.” No outro dia, estávamos à sua porta, prontos para escutar sua história.

- Comecei a gostar de teatro ainda quando era pequena. Naquele tempo ainda não tínhamos nem rádio e nem televisão, então, todo o final de tarde minha avô pegava seu velho tamborete e ia para a porta de casa nos contar suas histórias de príncipes e sereias, enquanto eu, meus irmãos e até alguns vizinhos sentávamos ao seu redor, atentos em suas palavras. As histórias de minha avó me faziam querer conhecer os príncipes e as sereias que moravam no fundo do mar. Às vezes, eu também fugia da escola e ia para o circo de lona. Andava de bicicleta na corda bamba e cheguei até a pular no trapézio. Eu também sempre fui macaca de auditório, e cheguei a participar de programa na rádio Pioneira – Dona Fátima então era tomada por um grande sorriso. Parecia divertir-se diante das lembranças de sua infância. 

- Com 17 anos, eu comecei a atuar em um grupo de teatro. Nesse mesmo período eu conheci Raimundo Dias, professor de dança folclórica da Fundação Monsenhor Chaves, que percebeu meu talento, então me incentivou a criar um grupo de teatro, para podermos formar uma federação, que só podia ser feita com no mínimo oito grupos. No começo não tínhamos dinheiro, então improvisávamos com roupas usadas, TNT e caixas de papelão. As coisas que conseguíamos, era tudo na base da amizade. Confesso que eu tinha medo, porque naquele tempo existiam outros grupos com recursos, alguns, chegavam até a ir ver nossas apresentações. Mas eu não desistia, porque sabia que tinha gente que confiava em mim e eu não ia fazer feio na frente deles – suas palavras soavam com grande convicção e seus olhos franziam ao dizê-las. 

- Aos 19 anos, eu casei. Meu marido, assim como meus filhos hoje, odiavam teatro. Ele já até ameaçou de me dar um tiro, caso eu continuasse a me apresentar. Depois fomos morar no Rio de Janeiro e lá, ele conseguiu me manter longe do teatro por 8 anos, até que em 1987 eu decidi voltar. Naquele ano eu adaptei, dirigi e atuei a peça “Quincas Belgrado”. Foi nesse período que eu percebi realmente que estava no caminho certo de minha vida. Participei também do Festival Nacional de Monólogos com o monólogo “O Anjo Negro” que ganhou o prêmio do júri popular. Participei da peça “A Batalha do Jenipapo” por seis anos seguidos e também da peça “Rios e Mitos”. Me preparei para dar aulas de dança folclórica no Teatro do Boi, que antes era um matadouro, mas foi adaptado e tornou-se palco de apresentação. Depois fui convidada por Eugênia Ferraz para dar aulas de artes cênicas no Dirceu. E em prol dos meus serviços prestados à cidade, eu ganhei um certificado de honra e mérito. – Dona Fátima agora sorria e gesticulava ao falar. Estava mais solta diante de nossa presença. Parecia que ela era a contadora de histórias e nós, as criançinhas que sentavam ao seu redor. 

O telefone tocou, interrompendo sua narração, semelhante a quando uma moça veio deixar-lhe uma pasta verde e que agora era usado como abano, na tentativa de lhe refrescar. 

- Nesse período, – prosseguiu ela – o grupo se dividiu em dois, então, nós pedimos esse espaço do Teatro Arena para podermos atuar. Quando o grupo voltou a unir-se, eu já era auxiliar de administração da Fundação Monsenhor Chaves. Quando chegamos, o Teatro de Arena estava servindo de abrigo para marginais e vândalos que até nos ameaçaram e apedrejaram, querendo que fossemos embora. Mas com o tempo conseguimos ajeitá-lo completamente. Depois a Eugênia me nomeou coordenadora daqui. Aqui, através do “Enquanto o ônibus não vem”, o artista que está começando pode apresentar-se e ainda ganhar um cachê. Quando eu comecei, um projeto desses era tudo o que eu queria. Hoje, eles podem me tirar do cargo quando quiserem, porque eu acredito que eu já dei minha contribuição para o teatro, assim como também para a cultura do Piauí – concluiu ela, respirando fundo, como se sentisse o merecido orgulho que tinha de si mesma.

Maria de Fátima da Silva Lima é a responsável por liberar o espaço para os artistas de ruas se apresentarem. Seu sorriso irreverente esconde a mulher batalhadora que sempre correu atrás de seus sonhos e que demonstra plena satisfação no trabalho que realiza. E assim como tantas outras pessoas que todos os dias passam por nós, ela tem uma história interessante para contar. E o melhor é que ela não corre quando chegamos perto.
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