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segunda-feira, 22 de março de 2010

Vou mastigando a cidade e ruminando...1ª parte de uma trilogia do Artes de Março

Até antes de descobrir que havia passado na segunda chamada pra o curso técnico em Artes Visuais no IFPI ~não consigo chamar assim, desde que me entendo por gente é CEFET-PI: minha mãe estudou no CEFET, meus irmãos mais velhos estudaram no CEFET, eu estudei no CEFET, então é CEFET, porra! ~ enfim, desde que a professora Francineide me ligou mais de uma semana do início das aulas que não começaram realmente na data prevista dizendo que o meu nome estava na segunda chamada (detalhe: eu apenas havia feito o teste de aptidão, e faltei a prova objetiva por estar com depressão na época e pouco me lixar que dia era a data dessa prova até 2h depois que ela havia começado e eu tive uma recaída depressiva, ou seja, daí vocês tiram: eram tão poucos alunos que realmente iam cursar que chamaram até quem não fez a prova...queima! ) ~ enfim, desde que comecei a refazer aquele caminho rumo as aulas do ensino médio, a atração mais poderosa que a mais nova edição do Artes de Março poderia exercer sobre mim era trazer o cantor/compositor/violeiro Renato Texeira para Teresina. Não que eu seja fã dele (até que gosto de umas músicas), mas me lembrei do meu pai, que o adora e tem uns 20 CDs com praticamente as mesmas canções. Como a última vez que saí com meu pai acho que foi prum circo em que eu devia ter uns 7 anos(não estou contando as saídas obrigatórias na casa de parentes nem os bingos do Paraíba), convidei ele pra gente ir junto no dia 22. 
"Que dia é dia 22?"
"Num sei...deixa eu ver aqui"- eu pego o celular
"Vixe, é numa segunda-feira..."- o pai engatilha um calendário 2010 de bolso antes da minha resposta
"Vixe..."- lembrar de criar um atalho pro calendário
"Ah, é só uma segunda-feira.Trabalho eu vou ter o restante do ano. Renato Texeira não."


Se não fosse eu freqüentar o curso não teria ido na abertura do evento de jeito nenhum: só no dia 22 mesmo. Convidei toda a turma do CEFET pra ir lá comigo assistir, mas só foi o Jadson (mais tarde eu ia descobrir que essa cena se repetiria várias e várias vezes...) O Jadson é totalmente diferente de mim: lapa de negão, no primeiro dia de aula achei que ele fosse muito sério e calado, só abrindo a boca com aquela voz extremamente grossa e reverberando pra dentro somente para responder o essencial do que lhe perguntavam. Depois vi que era justamente o contrário: bastou o caminho da parada de ônibus da Avenida Frei Serafim até o Shopping, onde ocorre a exposição, pra eu saber que ele trabalha numa escola do bairro onde mora, Promorar, é uma espécie de coordenador/bedel/babá que vira e mexe leva surra, seja de aluno ou de pais, mas antes trabalhava como auxiliar de técnico hospitalar, tirando sangue - ele morre de medo de agulha, mas hoje em dia já passou- e examinando aqueles potinhos de necessidades fisiológicas e como a sua chefe rabugenta ficou com o rosto manchado pelas mesmas por que um frasco daquilo explodiu, essas pessoas que pensam que tem que encher até a tampa de merda, ave maria! mas foi bem-feito pra ela; ele também é planejador de instalações antes mesmo de saber desse negócio de arte contemporânea lá no interior dele, Valênça do Piauí, se não me engano, planejando intervenções no meio dos festejos de Nossa Senhora, o irmão dele só quer saber de esportes radicais, não faz mas nada na vida e a irmã dele gostava de cortar o cabelo das Barbies bem curtinhos e pintá-las, descolorí-las  e rasgar as roupas hoje em dia ela largou esse negócio de arte; que ele anda com um amuleto que na verdade é um desenho que ele fez faz tempo quando tava deprimido de uma bonequinha em estilo meio mangá com uma arma de madeira e ela deu forças pra ele, mesmo assim é muito natural  conversar com ele: pense numa alegria descompromissada! Pouco tempo depois, numa nova visita a exposição, ouvi a história de seu falecido pintinho de estimação, Xispito, que nasceu com as patas atrofiadas e acabou na panela da cozinha- como ele reconheceu: a mãe havia cozinhado até as pernas alejadas do pobre, Jadson olhou: "Xispito?!" sem falar que ele foi a primeira pessoa que me confessou na vida que fazia grafite com embalagem velha de desodorante barato cheia com água, secava num instante!  marmota de menino réi, passava horas no sol fazendo isso!
Eu só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei...

Fotos por Ludmila Monteiro

Desenhos de Jadson Fernandes
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