Narrativa de Viagem escrita por Irina Coelho durante o curso de férias de jornalismo literário
A travessia é diária. Sair de Teresina e chegar a Timon é o caminho feito por muitos, inclusive o meu. Dessa vez, ganhamos novos pés. Acostumada a ver o mundo de cima para baixo (na ponte) essa experiência me fez ver o mundo de baixo para cima (no barco). O ponto de partida é o cais. A inclinação da rampa pede um pouco mais de atenção e a imagem de iemanjá nos recebe com champanhe e de braços abertos. O desafio era chegar ao lado maranhense e quem nos guia é Seu Sebastião Vasconcelos, que desde 1977 toca as duas últimas embarcações que carrega passageiros na rota Teresina- Timon.
Batizado de Quatro de Abril, a pequena embarcação ganhou esse nome em homenagem à data de nascimento da Dona Francisca, mãe de Serbatião. A primeira viagem foi realizada no barco em 1965, por dez passageiros e tudo devidamente registrado em uma placa fixada ao lado da direção e bem próximo ao seu Sebastião.Com lugar para no máximo quinze pessoas, o Quatro de Abril carrega em suas tábuas frouxas a história de uma família que teve início em 1928, época áurea da navegação do rio Parnaíba.
Muitas décadas depois e já na terceira geração, Seu Sebastião continua fazendo 40 viagens diárias entre uma margem e outra e cada passageiro desembolsa apenas R$1,00 pela experiência. Dentro do barco, o teco-teco do motor é ensurdecedor. A presença de coletes salva vidas na embarcação e a ausência deles em nossos corpos nos faz ter a certeza que iemanjá nos guiaria rumo à outra margem. A água é turva e o lixo que passa ao nosso redor me faz ver que estamos maltratando o Parnaíba. O vento e a água desenham as curvas da coroa e também dialogam com seu Sebastião deixando só uma pequena brecha navegável para o Quatro de Abril.
Outra cena a parte são as pontes. Ao todo são três, mas meus olhos só enxergam duas delas. Dois gigantes construídos com formas e em épocas diferentes. De um lado, a ponte João Luís Ferreira ou a ponte Metálica, que é um dos cartões postais de Teresina, além de ser uma construção já tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Do outro, a menina moça ponte José Sarney, essa com pouco mais de sete anos de inaugurada e com suas curvas sinuosas: eu vi essa ser construída. Cada bloco de concreto posto era uma vitória para quem morava do lado de lá de Teresina e acreditava que a nova ponte traria uns minutos a mais por não ter semáforo.
Em terra firme, na cidade maranhense, com um cais improvisado, as pessoas avistam o Quatro de Abril e logo se arrumam em fila. Uns saem, outros entram e logo todos tratam de se acomodar. Seu Pedro Alves, por exemplo, escolhe a cadeira de espaguete próxima ao motor. O homem é elegante, usa cabelo bem penteado, veste uma calça de linho, camisa de botão e sapato de bico fino e afirma fazer essa travessia desde 1994. “Desde 1994 eu moro próximo a margem do rio (em Timon) e sempre que preciso ir a Teresina uso o barco. È cômodo e rápido. Vou para o centro de Teresina por apenas um real e não preciso ficar esperando ônibus que demora demais”, conta.
A engrenagem é perfeita. A direção, ligada ao motor, move o leme. Da mesma forma, uns vem, outros vão e o rio continua a passear entre duas cidades. As pontes passam os dias vendo o rio passar e o ponto final da travessia é a Av. Maranhão, localizada no Piauí. De toda a experiência só lamento não poder ter dado um mergulho.