Reportagem escrita por Filipi "Cloud" Gustavo como última atividade do curso de férias de jornalismo literário
Fotos de Caio Bruno
Fotos de Caio Bruno
“Vocês tão precisando de alguma coisa?” disse o homem, provavelmente uns 40 e poucos anos, boné surrado na cabeça e celular V3 encostado no ouvido. O tom de voz era de quem queria disfarçar que falou especificamente conosco. Se um dia passar pela Praça da Bandeira – morando em Teresina, certamente passará – ou ao redor dela, é quase certo que receba uma abordagem parecida.
A Praça da Bandeira, localizada no coração de Teresina, pode ser considerada o próprio. Um órgão cheio de vida, local de passagem de milhares de pessoas por dia, de todas as classes sociais, cores, credos e naturalidades. Rodeada por edificações notáveis – Shopping da Cidade; a Fundação Cultural do Piauí; o Palácio da Cidade, sede da prefeitura; a Biblioteca Pública Abdias Neves; a sede do Ministério da Fazenda; a Igreja Nossa Senhora do Amparo; o Luxor Hotel Piauí; uma filial do Banco do Nordeste; um templo da Igreja Universal do Reino de Deus; o terminal central de ônibus; o Museu do Piauí e várias lojinhas de redes, chapéis, protetores de muriçoca e vestuários em geral – a praça é caminho praticamente obrigatório para quem vai ao centro da cidade. Um primeiro olhar despercebido não é suficiente para captar sua apressada pulsação.
Foi-se o tempo em que as praças eram um lugar de descanso, passeio e entretenimento: uma espécie de refúgio arborizado em meio ao ambiente urbano, onde as pessoas podiam passear com a família e ver eventos. Com a Praça da Bandeira não é diferente. Tornou-se hoje apenas um lugar qualquer que se atravessa para a maioria das pessoas. Ou pior: um lugar indesejado.
Cristiane, de 20 anos, tem uma loja de roupas esportivas no primeiro andar do Shopping da Cidade, e, sentada num banquinho à beira da sacada, observa o movimento na praça. “Tenho medo de andar na praça, é perigoso. Já fui assaltada e várias conhecidas minhas também”, expõe Cristiane, que diz evitar até mesmo passar por dentro da praça.
Segundo Cristiane a praça é um local de prostituição camuflada – nem tanto, já que ela própria alega ter visto um casal “engajado” em atividade sexual em plena luz do dia no Teatro de Arena – além de comércio ilegal: os vendedores de celular e eletrônicos são em grande parte culpados pelo “envenenamento” da praça.
Envenenamento celular
Justamente em frente à entrada do Shopping da Cidade que segue rumo à praça, o passeio público é interrompido todos os dias por um monte de homens e rapazes: a grande maioria deles veste-se casualmente - camisetas leves, bermudões, camisas de times de futebol... –,para expor suas mercadorias de última geração sobre banquinhos ou caixotes, suas motos instaladas ali perto. Os produtos vão desde celulares de ponta àqueles players de música e vídeo com câmera fotográfica e “trocentas” utilidades extras.
Uma boa parte das pessoas que não estão apenas de passagem vão à praça com a finalidade de adquirir algum desses produtos. O público inclui de jovens moças e senhoras de idade até, ironicamente, alguns policiais. Pouquíssimos são os que se dirigem à Praça da Bandeira para refrigerar-se sob a sombra das colossais árvores ou ver os artistas de rua – figuras como o nômade palhaço Mulambinho, um misto de piadista e prestidigitador, que entre pequenos números ilusórios arenga com quem estiver a passar; e um grupo musical formado por equatorianos em roupas tradicionais indígenas.
Uma boa parte das pessoas que não estão apenas de passagem vão à praça com a finalidade de adquirir algum desses produtos. O público inclui de jovens moças e senhoras de idade até, ironicamente, alguns policiais. Pouquíssimos são os que se dirigem à Praça da Bandeira para refrigerar-se sob a sombra das colossais árvores ou ver os artistas de rua – figuras como o nômade palhaço Mulambinho, um misto de piadista e prestidigitador, que entre pequenos números ilusórios arenga com quem estiver a passar; e um grupo musical formado por equatorianos em roupas tradicionais indígenas.
É uma pena que personagens tão coloridas não sejam tão prestigiadas quanto poderiam (e deveriam), devido ao receio dos pedestres em adentrar a praça. Nem mesmo a perene revoada de pombos, que parecem estar ali desde o início dos tempos, consegue mais despertar a atenção de quem cruza a Praça da Bandeira.
Frente ao Palácio da Cidade, um grupo de mototaxistas aguarda clientes, e entre eles também há alguns funcionários públicos em horário de descanso. Proseiam para matar o tempo, observando a movimentação. Todos, claramente, sem muitas preocupações na cabeça, fruindo a conveniente sombra gerada pela árvore postada ao lado da fileira de motocicletas amarelas. Para todos eles a praça é um local de insegurança, onde opera uma discreta rede de prostituição e tráfico. Sim, provavelmente disso que o homem do celular achou que poderíamos estar precisando.
“A praça não mudou nada em 10 anos”, “Nunca entrei na praça”, são falas de alguns destes homens que diariamente trabalham defronte à Praça da Bandeira, mas não mantém nenhuma relação com ela além de medo ou indiferença. Algumas viagens de moto pela cidade, para ganhar uns trocados, e uma bela proteção do sol de Teresina são muito mais interessantes. “Pra quê mesmo ir lá? Só vejo coisas ruins”.
Ainda há sujeitos “boa praça” nesta não tão boa praça
Mas nem tudo é tão decadente assim. Há quem diga que a praça ainda sustenta aspectos positivos o suficiente para ser considerada um local digno de atenção e elogios. “A praça é beleza. Gosto de ver os pombos, os artistas... É excelente.” Diz com uma voz rareada seu Juvenal, 53 anos, vendedor de bombons e vales-transporte, localizado no terminal de ônibus, que prefere ver as qualidades da Praça da Bandeira.
A beleza da praça também é percebida por Gilvane, de 28 anos, que atribui um valor especial ao local por ser um ambiente que evoca suas memórias de infância. Quando criança, Gilvane passeava com o pai pela Praça da Bandeira.
Hoje, sentada na arquibancada do teatro de arena, ela gasta um tempo relaxando e conversando com uma amiga e a filha desta, uma criança enfiada em um vestido rosa, mordiscando um pastelzinho enquanto se mete entre as fileiras da arquibancada, como uma menina travessa deve fazer. “Antigamente a praça era um lugar pra passear, meu pai vinha e trazia a gente pra cá. Hoje é só uma passagem. Só isso”.
Hoje, sentada na arquibancada do teatro de arena, ela gasta um tempo relaxando e conversando com uma amiga e a filha desta, uma criança enfiada em um vestido rosa, mordiscando um pastelzinho enquanto se mete entre as fileiras da arquibancada, como uma menina travessa deve fazer. “Antigamente a praça era um lugar pra passear, meu pai vinha e trazia a gente pra cá. Hoje é só uma passagem. Só isso”.


